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Martha Werneck foi uma adorável surpresa para mim. Até Laura, minha querida editora, me sugerir o nome de Marta pra ilustrar O DONO DA LUA, eu não conhecia o seu trabalho. Mas assim que vi soube que queria Nick e Cia. nos seus traços. Pois hoje tenho o prazer de trazer uma entrevista com ela, na qual a ilustradora conta um pouco sobre o seu processo de criação. Aproveitem!

Como surgiu seu interesse pela ilustração e há quanto tempo trabalha com isso?
Na verdade, quando entrei na faculdade de Pintura – sou graduada em Pintura pela escola de Belas Artes da UFRJ, curso onde hoje dou aula – eu só sabia que gostava muito de pintar e de desenhar. Imaginava a profissão de pintora como algo que me desse o prazer da criação de uma imagem. Aos poucos, durante o curso, fui tomando contato com as várias áreas em que eu poderia trabalhar e, por me interessar pelos livros, gostar de ler, fiz um semestre de aulas de ilustração com o ilustrador e professor Rui de Oliveira. Isso me abriu os olhos e o coração para essa profissão e, desde então, busquei me aprofundar no assunto e entender o papel do ilustrador no mundo. Trabalho como ilustradora desde 1999, eu acho, e conjuguei essa profissão com diversas outras atividades, já que minha formação abre um leque de trabalhos possíveis como a pintura em si, o design, a pesquisa e a docência.

Qual o teu processo para ilustrar um livro infantil?
O que mais me deixa feliz é quando posso ler o texto meses antes de começar a ilustrar. Isso dá tempo para imaginar cada detalhe, para pesquisar e pensar no clima do livro mais profundamente. Depois que já amadureci a ideia, fiz a pesquisa de imagens que desejava, passo a fazer pequenos croquis dos personagens e dos cenários (parte que mais gosto), amadurecendo o universo do livro. Em seguida, divido o texto em páginas e penso mais ou menos em como vou fazer a diagramação do livro, já que além de ilustrar gosto, quando posso, de fazer o projeto gráfico. Aí então é que desenho todas as páginas do livro bem pequeninas, em um caderno de estudos. Nelas eu esboço a sequência das ilustrações, já que é muito importante que as imagens façam sentido para quem lê. Só depois que resolvo esse problema é que desenho novamente essas imagens e começo a trabalhar detalhes. Bem, até aí eu devo estar satisfeita com o todo. Envio uma prova do livro só com a arte desenhada para a editora, que aprova ou não o conceito, os desenhos etc. Só então que amplio para o tamanho original esses desenhos e faço o que chamamos de arte final: que é colorir os desenhos. Eu particularmente gosto de trabalhar com materiais de pintura como aquarela, têmperas acrílicas e vinílicas e também tinta a óleo, técnica com a qual fiz O DONO DA LUA. Por último eu escaneio essas ilustrações e faço pequenos acabamentos no computador, com programas gráficos. Feito isso, realizo a diagramação do livro com as imagens originais. Ufa! É isso aí! Quando vemos o livro pronto nem parece que ele passa por todas essas etapas, não é?

Ilustração de Martha Werneck para O DONO DA LUA

Há dificuldades para ilustrar um texto escrito por outra pessoa? Se sim, quais são?
Eu não vejo nenhuma dificuldade em ilustrar textos alheios, mas acho importante recusar o trabalho quando não sinto simpatia pelo tema. Pode ser que o livro seja maravilhoso e tenha ótima qualidade, mas se o ilustrador não se identifica com o texto, acho de bom tom passar o trabalho para outro profissional, que poderá enriquecer mais o trabalho.

Que elementos de um texto te ajudam a escolher o estilo de ilustração para a história?
Essa é uma questão difícil, Ronize! O que me ajuda a criar um universo imagético para um livro geralmente não é um elemento em particular, mas a pesquisa que faço de outras imagens e de outros ilustradores. Acho que o clima da história – se é sombria, se é alegre, se é de mistério ou se é de fantasia (ou, ou, ou) – é que me dá impulso para criar.

O que no texto de O DONO DA LUA mais te inspirou na hora de ilustrá-lo?
Acho que o contexto da história é inspirador, mas pensar no suposto dono da Lua e no lugar onde ele mora, como ele puxa a Lua do céu para trocar as fases…. isso foi o que mais me deu ideias! Fiquei pensando no que teria na casinha dele, em como seria seu cachorro, em como seria essa casa e todos esses detalhes que fazem das ilustrações em geral algo mais interessante. Ilustrar não é construir personagens de forma figurativa, mas relacioná-los a ambientes. Isso é o que acho mais importante para dar o clima que pretendo a um livro!

Ilustração de Martha Werneck para "As malas do Rei"

O que você diria para quem deseja ser ilustrador(a)?
Considero o ilustrador um autor de imagens, que tem tanta importância quando o autor de textos. Sendo assim, é de muita responsabilidade ilustrar um livro, pois a educação visual para as crianças se dá também através deles. Apresentar algo de qualidade, estudar para isso, fugir das imagens vulgares e do lugar comum, envolver a criança em uma atmosfera através da imagem é o papel do ilustrador. Assim, aconselho a quem quiser ser ilustrador, que faça faculdade de artes visuais, em especial a de Pintura, que é uma arte que se dá na bidimensão e um curso muito versátil, que pode abrir muitos campos de trabalho para quem realmente quer se especializar nisso e se dedicar à arte. Acho que cursar uma faculdade é melhor do que cursinhos de arte em geral, pois a faculdade nos dá uma formação mais completa e abrangente. Ilustrar e pintar não são coisas de “artista doidão”, ao contrário do que dizem os estereótipos. É necessária muita disciplina para construir um trabalho coerente e sólido, um trabalho rico. Para quem ainda está longe de entrar numa faculdade, aconselho que desenhe, desenhe, desenhe sempre e também que olhe muitos livros, para ampliar seu repertório visual.

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