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Histórias de princesas costumam inspirar meninas que, mesmo em tempos de internet, games e afins, ainda se encantam com castelos, vestidos longos, tiaras e príncipes montados em cavalos brancos. Mas será que a vida real pode inspirar uma história de princesa, com palácios, príncipes, maldições e sonhos difíceis de realizar? Pode sim. Foi exatamente assim que surgiu A última Princesa, livro juvenil de Fábio Yabu lançado pela Galera Record.

A passagem da vida real que inspirou o autor foi o jantar oferecido pela princesa Isabel a Santos Dumont, no Castelo D’Eu, que se tornou residência da princesa e do Conde D’Eu em seu exílio na capital francesa. Santos Dumont, em mais um de seus voos experimentais, havia circulado a Torre Eiffel quando uma forte corrente de ar consumiu seu combustível rápido demais, fazendo-o cair numa árvore próxima à residência da princesa. Em seguida veio o convite para jantar e o início da amizade que conduz a história do livro.

São duas narrativas paralelas e complementares que se alternam capítulo a capítulo e ajudam a criar o clima de envolvimento e suspense. Apesar de baseada em fatos reais e mesmo já tendo um final conhecido, a história cativa pelos detalhes revelados e pelos elementos de ficção que Yabu insere sem quebrar o ritmo nem falsear uma história real-imaginária. Às vezes o que nos parece inverossímil nada mais é do que registro histórico, enquanto em outros momentos a ficção faz tanto sentido que poderia muito bem ter acontecido daquela maneira. Nos pegamos tentando separar o que foi do que poderia ter sido, mas então o deslumbramento se sobrepõe e isso já não tem mais importância.

Os capítulos ímpares revelam uma princesa ainda jovem descobrindo a si mesma e o mundo ao seu redor. A exemplo dos romances de formação (Bildungsroman), o leitor pode acompanhar as experiências que ajudarão no desenvolvimento da personalidade e formação do caráter da protagonista. A vida vai se revelando aos poucos para a jovem, que percebe que além do seu mundo/palácio de cristal a realidade não é tão encantada assim – a exemplo da descoberta de que os serviçais do castelo são, na verdade, escravos sem direito algum. A perda da inocência dá o tom do texto, que vai forjando uma princesa menos preocupada com os bailes e mais atenta às desigualdades que encontra pela frente.

Os capítulos pares nos mostram a princesa já exilada em Paris com seu príncipe, depois de proclamada a república em seu reino. A amizade com Santos Dumont e o sonho do brasileiro de construir a Ave de Rapina para poder levar a princesa de volta para casa dão a tônica da narrativa. O espírito leve e aventureiro do inventor preenche a vida de Isabel com esperança, diversão e encantamento. Em alguns momentos, Santos Dumont mais parece um bruxo do que um homem da ciência. E o que dizer se ele mesmo declara que “este mundo é cheio de coisas mágicas. No fundo, todo homem da ciência sabe disso”?

Impossível não falar da linda capa feita pelo artista mineiro Mathiole. Com um traço onírico, ele consegue traduzir em imagens a bem-sucedida composição criada pelo autor entre História (a dos livros biográficos) e magia. No interior do livro as ilustrações perdem a cor e funcionam como pequenos destaques, um bem-vindo recurso nem sempre explorado em livros juvenis.

Uma grande ode à amizade: eis com o que o autor nos presenteia. Assim como o inventor queria devolver a princesa ao seu reino, Yabu também nos devolve Isabel, uma personagem extraordinária que, por obra do destino, surgiu primeiro no mundo real, mas nem por isso sem os encantamentos da ficção. E aí está um dos grandes méritos do livro: juntar uma personagem fascinante e um autor capaz de dar a ela a dimensão real dos contos de fada.

A última princesa
Fábio Yabu
Galera Record, 2012

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